
Durante
o intervalo das aulas, na escola municipal Dona Lili, em Balneário
Camboriú (SC), duas crianças gesticulam incessantemente. Sorrindo, os
professores só as observam de longe. Os gestos rápidos, firmes e
incisivos não são acompanhados de sons. Os meninos estão conversando na
linguagem brasileira de sinais (libras).
A cena, cada vez mais
frequente em escolas públicas, revela resultados da política do governo
federal para inclusão de estudantes com deficiência em turmas
regulares. Uma campanha de televisão divulgada esta semana, promovida
pelo Ministério da Educação, mostra a importância da inclusão desses
estudantes e o combate ao preconceito.
Um dos estudantes da
escola de Camboriú é Sanderson Ferreira, 13, surdo, matriculado na
turma regular do sétimo ano. Sanderson é um dos 13 alunos com
deficiência, física ou mental, atendidos na Dona Lili. São crianças com
surdez, espectro autista, paralisia cerebral, síndrome de Tourette, mas
que frequentam a escola comum. Durante as aulas, Sanderson é
acompanhado por um intérprete de libras que repassa, na linguagem de
sinais, o conteúdo explicado pelo professor.
Com dez anos de
funcionamento, a escola se adaptou para atender as necessidades de seus
alunos, seja nas rampas de acesso, nos intérpretes de libras ou no
apoio pedagógico especial, durante as aulas e nos contraturnos. O
esforço busca propiciar aos alunos com deficiência a oportunidade de
adquirir conhecimento no mesmo ambiente das outras crianças.
A
diretora da escola, Suzete Reinert, considera essa política como
instrumento para formação não apenas intelectual das crianças. “O nosso
principal objetivo é que nossos alunos aprendam, dentro de suas
possibilidades, o máximo possível”, diz ela. “Porém não é só o
aprendizado acadêmico, do português e da matemática, que importa. Vindo
aqui, eles ganham mais independência, sociabilizam melhor e superam
seus limites”, diz a diretora.
Barreira – Uma
barreira no processo de inclusão é a falta de conscientização de alguns
professores, que resistem à presença dos alunos em sala de aula,
recusam-se a alterar seus métodos de ensino e têm dificuldades de
aceitar os profissionais de apoio pedagógico especial, que auxiliam
professores que possuem alunos com deficiência na sala. O trabalho do
apoio especial não substitui o professor regente, o principal
responsável pelo aluno.
Segundo Suzete Reinert, “é importante
que os professores saibam qual é a deficiência que a criança tem, pois
as necessidades de uma criança com autismo são diferentes das de um
cadeirante”. Para superar a desconfiança é preciso focar na formação do
professor.
Pedagoga especializada em educação especial, Giséli
Vinotti faz parte da equipe de apoio pedagógico especial da escola. Ela
defende a inclusão e o aprendizado das crianças com deficiência como um
esforço da escola, da criança e dos pais. “Um dos problemas que
enfrentamos é a resistência de alguns pais para permitir que seus
filhos venham à escola, eles resistem muitas vezes por achar que a
escola não vai dar a atenção necessária”, afirma Vinotti.

Pai
de uma aluna com espectro autista e professor de informática da Dona
Lili, Jamis Correa reconhece a importância da escola na vida da filha.
“Ela tem dificuldade de se adaptar à rotina e encontra isso aqui. A
escola conversou com a gente e se preparou para recebê-la, hoje ela já
pergunta pelas aulas do dia.”
As ações desenvolvidas na escola
Dona Lili se enquadram nos projetos de inclusão da rede municipal de
educação de Balneário Camboriú e são coordenados pelo Departamento de
Educação Especial.
Profissionais – Implantado
em 2002 para levar uma educação inclusiva de qualidade, o departamento
conta com profissionais especializados, como pedagogos e educadores
especiais, psicólogos, fonoaudiólogos, instrutores e intérpretes de
libras, para atender 480 crianças com deficiência nas 16 escolas e 23
centros de educação infantil.
Apesar do sucesso atingido pelos
programas, para a diretora do departamento, Fabiana Lorenzoni, é
preciso ainda flexibilizar o currículo escolar e criar novos métodos de
avaliação. “É preciso adequar os mecanismos de avaliação que serão
utilizados, não podemos avaliar da mesma forma pessoas com deficiências
diferentes nem aquelas que não têm deficiência.”
Para Lorenzoni,
a política de educação inclusiva tem papel fundamental na construção do
caráter cidadão não apenas dos deficientes atendidos, mas dos demais
estudantes. Para a diretora, o contato entre alunos comuns e alunos com
deficiência cria uma relação mútua de desenvolvimento. “Enquanto os
alunos comuns aprendem a conviver com a diversidade, os alunos com
deficiência se sociabilizam, tornando-se menos infantilizados, aprendem
mais.”
Socialização – É o caso de Dionei Berto,
17, que estudou na escola Dona Lili até 2009 e hoje cursa o primeiro
ano do ensino médio em turma regular da Escola Estadual Urbana Profª
Francisca Alves Gevaerd. Ele sonha ser médico, joga vôlei em uma
escolinha no colégio, gosta de surfe, trabalha como copeiro e, devido a
uma deformidade congênita, não tem o antebraço esquerdo.

Dionei
participou de uma escolinha de surfe vinculada à rede municipal. “Se no
colégio eu ficava no meu canto, com uns poucos amigos, no surfe sempre
me trataram como igual, com o tempo eu comecei a fazer mais amigos”,
revela Berto.
Praticar o esporte elevou a autoestima e a
confiança do adolescente, porém a discriminação não acabou. Segundo
Dionei, “há as brincadeiras e os apelidos que não incomodam, dos
amigos, mas têm aqueles que querem ofender, nesses casos eu fico
chateado”.
Diego RochaAcesse a campanha
Fonte: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16508